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10/12/2010

Um dia ela se tocou

Tinha, tinha que descobrir. Nunca havia sido suficientemente corajosa para passar de certos pontos.

Alguém poderia ficar sabendo, afinal. E se a mãe soubesse, e depois contasse ao pai? Como explicar suas curiosidades mais encardidas aos pais? E depois, se isso realmente acontecesse, quem ela seria? Quem seria ela depois que eles descobrissem que o anjinho da família, orgulho do papai, tinha lá sua outra face escondida? Eles nunca mais a amariam.

A mãe esconderia em cada palavra e cada gesto o desprezo por uma filha putinha. O pai pegaria a cinta e deixaria suas perninhas finas com vergões que durariam dias. E depois calaria para sempre, num silêncio decepcionado e fatal.


É assim que eles queriam que eu fosse | Link

Por que tudo o que enojava os pais tinha que ser tão sedutor? Não se lembrava onde aquelas coisas haviam começado, mas desde quando se deu conta de suas curiosidades e dúvidas, teve a consciência de que não suportaria correr delas para sempre. Um dia sucumbiria, e isso seria fatal.

Não que ela não brincasse. Brincava, ô se brincava. Sozinha, com algumas amigas, até mesmo com um primo já havia se permitido brincar. Obviamente se arrependeu, meninos não sabem guardar segredos. Mas ele não poderia ir muito longe, pois os laços de sangue que os uniam cobravam dele mesmo uma postura mais discreta. Pelo menos mais discreta do que o normal para meninos daquela idade.

Ela só não passava de certos pontos. Uma vez, no banho, pegou um frasco bem pequeno e se perguntou: “por que não colocar, só um pouquinho? Mas e se sangrar? E se um dia minha mãe resolver me levar num desses médicos horrorosos e ele contar sobre quem eu sou quando ela não está me olhando?” Desistiu, obviamente desistiu.

Mas isso porque ela nunca havia sentido de fato aquela coisa de adultos. Era mesmo uma curiosidade muito infantil. A de se tocar por fora e por dentro. Vez ou outra sentia uma coisa diferente ao andar de bicicleta. Mas de onde vinha, para onde ia, isso não respondia. Nem poderia, porque para responder a isso, deve-se passar de certos pontos. Aqueles pontos que queria tanto passar.

Um dia uma das amigas íntimas foi dormir com ela. Essa amiga era do tipo: você é muito melhor do que eu, mas eu vou te humilhar tanto que isso vai fazer com que eu me sinta melhor e mais forte do que você. O que ela secretamente sabia e perdoava, porque achava que valia a pena. Quando foram dormir, a amiga pegou um frasco pequeno de perfume, com formato cilíndrico, e a disse para fazer o mesmo. Como havia outro frasco igual, a menina obedeceu. Era para cada uma enfiar lá.

Achou-se tão estúpida. O que será que a amiga sentia com o vidro de perfume ali dentro? O que ela tinha que fazer com o frasco? Qual era a graça daquilo?

Mas não perguntou nada e foi, devagarzinho, colocando o frasco. Comemorou solitariamente uma vitória quando o perfume estava quase que engolido. Enfim, havia passado daquele ponto que tanto queria passar. E agora, faço o quê? Fez movimentos inexperientes. Tocou-se bruscamente, desconhecendo seu próprio instrumento e sua afinação. E depois de uns vinte minutos, a outra disse: “terminei, e você?”


Ela sabia como e onde fazer | Foto

Terminou? Como é que se sabe quando se termina? “Não, não terminei”. “Nossa, como você demora. Deixa eu ir aí ver um negócio.” A amiga enfiou a mão dentro da calcinha da menina. De repente ela estava sentindo aquela coisa, aquela coisa que a bicicleta a fazia sentir. Era tão suave. Queria se entregar à amiga. Sentiu vontade de que aquilo durasse para sempre. “Viu só?” É assim. A amiga cortou o barato e voltou para a outra cama. Ela bem que tentou continuar se tocando, mas ficou exausta. Não sabia por que o toque da amiga era tão mais gostoso do que o dela.

Mas agora? Agora tinha. Tinha que descobrir. E seria à sua maneira. E não teria mais medo de ninguém. Se fosse pra ser puta, seria. Seria uma putinha. Estava decidida. Bolou o plano. Ela só precisaria de um chuveiro e de algum tempo. O pai estava em casa mas ela enfrentaria. Enquanto não terminasse – por que a amiga sabia e ela não? -, significasse isso o que significasse, ela não pararia.

Entrou no banheiro e fechou a porta atrás de si, como se fosse a última vez. Como se da próxima vez em que cruzasse aquela porta, o fizesse como quem deixa uma infância inteira para trás. Tirou toda a roupa. Sentou-se debaixo do chuveiro, com a mangueirinha na mão direita.

Abriu as pernas e mirou o jato bem naquela saliência cuja potencialidade ainda era pressentida, mas desconhecida. Incomodou-se demais, as pernas começaram a tremular involuntariamente. A dar espasmos. Pressionou mais o jato de água. Suava. De repente o incômodo foi dando lugar àquela sensação da bicicleta, só que muito mais intensa e contínua. À sensação do toque suave e molhado da amiga.

Quanto mais aquela sensação se concentrava naquele ponto, mais ela queria que a sensação se concentrasse. Fez caretas que nunca havia feito. Fechou os olhos. O que era aquilo, afinal? Como acabaria? Foi ficando ofegante, ofegante. A mão trêmula já não conseguia mais mirar o jato num só lugar: o jatinho variava, pois que as mãos tremiam.

Ela viu que isso era bom. Era ótimo. Era maravilhoso. Era incrível. Era, ai meu deus, o que, o que, o que era aquilo? De repente aquela parte intacta de seu corpo ganhou vida: até mover-se por conta própria, se movia. Uns espasmos – que isso?. Uma sensação meio doida – oh, que iss… que isso?. Uma sensação arrebatadora e curta. O que foi isso?


Apesar de sozinha, a amiga parecia presente.. | Foto

Mas logo o “o que foi isso?” se transfigurou num sorriso e ela pensou: então é isso! Terminar então, isso era terminar. Sentiu-se como nunca dona de seu próprio corpo.

Tomou-o das garras do falso moralismo materno e do ciúmes paterno e sentiu que estava livre. Que ela era dona de sua liberdade, de sua íntima liberdade. E não teve mais medo, porque possuir-se a si mesma era um sentimento imensamente mais forte do que o temor aos pais. Queria mais, era bom. Era muito bom, queria sempre. E podia fazer secretamente, sem meninos, sem amigas. Levantou-se esplêndida como a palavra independência, desligou o chuveiro.

Sentiu-se disposta, de um jeito sem precedentes. Pegou a toalha da Bela e a Fera. E sentiu que agora secava o corpo completo e majestoso de uma mulher.


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